Aos 472 anos, São Paulo é referência na resposta ao HIV — mas ativistas acreditam que é possível fazer mais
Em 25 de janeiro de 2026, São Paulo completa 472 anos como a maior cidade do Brasil e um dos principais centros da resposta ao HIV e à aids no país. Foi na capital paulista que se consolidaram políticas que garantem testagem gratuita, tratamento universal pelo SUS, distribuição de medicamentos antirretrovirais e estratégias de prevenção, como a profilaxia pré-exposição (PrEP) e a profilaxia pós-exposição (PEP), hoje reconhecidas internacionalmente como fundamentais no controle da epidemia.
Essas políticas ajudaram a transformar o HIV de uma infecção fatal em uma condição crônica tratável e fizeram de São Paulo uma referência nacional no cuidado às pessoas vivendo com o vírus. Ao mesmo tempo, por ser a maior metrópole do país e concentrar realidades sociais muito distintas, São Paulo acaba revelando com mais nitidez tanto os avanços quanto as limitações das políticas de HIV/aids. Ter serviços disponíveis, porém, não garante que todas as pessoas consigam acessá-los da mesma forma, especialmente em uma cidade marcada por profundas desigualdades territoriais.
Ao ouvir ativistas que acompanham de perto essa política pública, o aniversário da cidade se torna também um momento de reflexão. Eles reconhecem avanços concretos das últimas décadas, como a ampliação da testagem gratuita, o acesso universal ao tratamento pelo SUS, a incorporação da PrEP e da PEP como estratégias de prevenção e iniciativas que levam o cuidado para além dos serviços tradicionais, como a oferta dessas profilaxias em estações do metrô. Ao mesmo tempo, alertam que esses progressos ainda não alcançam todos os territórios da cidade de forma equitativa.
Confira:
Maria Elisa — Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas

“São Paulo é o maior centro populacional do país e também o maior centro de possibilidades de atendimento e de qualidade para as pessoas vivendo com HIV e aids. A cidade tem serviços de qualidade, um programa estadual que se esforça para fazer as políticas públicas funcionarem e uma coordenação municipal atuante. Mas eu acredito que a gente pode fazer muito mais.
Ainda temos gargalos seríssimos. Não conseguimos levar informação sobre prevenção combinada para a periferia. A PrEP, por exemplo, ainda é muito restrita a um público branco, de classe A. Você vai a uma comunidade periférica e, muitas vezes, ninguém sabe o que é PrEP. A juventude periférica tem pouquíssima informação sobre prevenção. A gente não consegue acessar esses jovens, e eles são o futuro.
Outra coisa que me incomoda muito é a ausência de campanhas sobre aids. Não se fala mais sobre isso em lugar nenhum. As pessoas estão o tempo todo no celular, mas por que não falar de aids no celular? No metrô, nos trens, nos meios que chegam à periferia? A população parece ter esquecido que a aids existe.
No aniversário de São Paulo, é importante dizer que dá para fazer mais. A sociedade civil sempre esteve presente e foi fundamental para chegarmos onde chegamos. Trabalhamos junto com o governo, com os serviços, chegando onde o Estado não chega.
A proposta hoje é eliminar a aids como problema de saúde pública, mas isso só será possível com informação clara, transparente e com mudança de comportamento. Não basta falar só de medicamentos. A gente quer cura, e a cura também passa por autocuidado, amor-próprio e preservação.”
Alisson Barreto — do Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids (Mopaids)

“São Paulo sempre esteve na linha de frente das políticas de enfrentamento ao HIV/aids, com uma rede ampla de serviços, acesso universal ao tratamento, prevenção combinada, testagem gratuita e iniciativas pioneiras, como as máquinas de PrEP e PEP no metrô, que salvam vidas.
Apesar disso, persistem desigualdades importantes no acesso aos serviços, especialmente entre populações mais vulnerabilizadas, como pessoas negras, periféricas, LGBTQIA+, usuários de drogas e pessoas em situação de rua.
O estigma, o preconceito e a desinformação ainda afastam muitas pessoas do diagnóstico precoce e do cuidado contínuo.
Para que São Paulo siga na liderança, é fundamental fortalecer o diálogo com a sociedade civil, retomar campanhas públicas de comunicação, ampliar o cuidado integral e garantir financiamento estável para as políticas de HIV/aids.”
Matheus Azevedo — Coordenador Estadual da Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/aids SP+

“São Paulo avançou significativamente no enfrentamento ao HIV/aids, especialmente na ampliação do diagnóstico, no tratamento como prevenção e no fortalecimento da PrEP e da PEP.
Esses avanços resultam da expansão dos serviços, da incorporação de novas tecnologias e da atuação histórica da sociedade civil, que ajudaram a reduzir barreiras de acesso.
No entanto, os desafios seguem atravessados por desigualdades profundas. O estigma ainda afasta muitas pessoas dos serviços, e populações como pessoas negras, LGBTQIA+, jovens, pessoas em situação de rua e quem vive nas periferias enfrentam dificuldades adicionais.
Manter a liderança exige respostas mais equitativas, descentralizadas e sustentáveis, com financiamento adequado, fortalecimento da participação social e políticas que cheguem também ao interior e às periferias.”
Américo Nunes — presidente do Instituto Vida Nova

“Apesar dos avanços, os desafios no campo do HIV/aids em São Paulo seguem exigindo vigilância constante.
A incidência continua alta em grupos como homens que fazem sexo com homens, população negra e pauperizada, enquanto pessoas em situação de rua enfrentam grandes dificuldades de acesso aos serviços.
A resistência ao tratamento antirretroviral é um desafio crescente, assim como o estigma e a discriminação, que seguem como obstáculos para a prevenção e o cuidado.
Mudanças no cenário político e a falta de recursos financeiros e humanos podem comprometer os avanços conquistados.
A integração das políticas de HIV/aids com saúde mental e doenças crônicas é fundamental para garantir um cuidado integral e digno.”
Marta Mc Britton —presidente do Instituto Cultural Barong

“São Paulo se destaca ao apostar em soluções que saem do modelo tradicional e se aproximam da vida real, como as máquinas de PrEP e PEP no metrô, integradas ao SPrEP e às teleconsultas.
Essas iniciativas ajudam a explicar a queda das novas infecções e o aumento do uso das profilaxias em uma metrópole complexa como São Paulo.
Nada disso acontece sem a sociedade civil. O Mopaids tem papel central na vigilância, articulação e defesa de direitos.
O grande desafio agora é transformar inovação em política pública estável e territorializada e enfrentar de forma direta o estigma e o preconceito.
Se a cidade mantiver essa combinação entre Estado, ciência e comunidade, São Paulo tem condições reais de alcançar as metas de 2030.”

A história da resposta ao HIV e à aids em São Paulo foi construída de forma coletiva, com a participação ativa de movimentos sociais, organizações comunitárias e pessoas vivendo com HIV, muitas vezes ocupando espaços onde o Estado não chegava. Aos 472 anos, a cidade carrega esse legado, mas também a responsabilidade de transformá-lo em futuro.
Diante da meta de eliminação da aids como problema de saúde pública, ativistas lembram que inovação tecnológica e novos medicamentos são fundamentais, mas insuficientes se não vierem acompanhados de informação clara, enfrentamento ao estigma e políticas que promovam autocuidado, equidade e dignidade. No aniversário da capital, o recado é direto: São Paulo pode mais e precisa fazer mais.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dicas de entrevista:
Movimento Nacional das Cidaãs Posithivas
Instagram: mncp_brasil
Movimento Paulistano de Luta Contra a Aids
Site: mopaids.org.br
Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/aids
Site: redejovensbrasil.com.br
Instituto Vida Nova
Telefone: (11) 2297-1516
Instituto Cultural Barong
Telefone: (11) 96636-3897