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São Paulo, 472 anos: Dispensers de autoteste de HIV levam testagem gratuita e autônoma a espaços públicos de São Paulo

Genilson Coutinho,
21/01/2026 | 23h01

Iniciativa da Secretaria Municipal da Saúde aposta em autonomia, acesso e redução do estigma para ampliar a testagem em territórios de grande circulação.

São Paulo não é feita apenas de grandes políticas ou números consolidados em relatórios. A cidade também se constrói nos deslocamentos diários, nas pausas inesperadas, nos encontros fortuitos em parques, terminais e centros culturais. É nesse cotidiano em movimento que a capital passa a incorporar uma estratégia silenciosa, mas potente: armários automáticos de autoteste de HIV instalados em espaços públicos, onde o cuidado pode acontecer sem agendamento, sem filas e sem olhares.

Ao longo do último ano, esses equipamentos passaram a integrar a paisagem urbana de diferentes regiões da cidade, oferecendo testagem gratuita e autônoma como parte das ações de prevenção adotadas pela Secretaria Municipal da Saúde.

Em meio ao fluxo cotidiano de pessoas que caminham, praticam exercícios ou simplesmente atravessam o Parque Augusta, no centro de São Paulo, um equipamento colorido chama atenção não apenas pelo visual, mas pela proposta: facilitar o acesso à testagem para o HIV de forma gratuita, rápida e com autonomia.

Os armários automáticos de autoteste, instalados pela Secretaria Municipal da Saúde, fazem parte de uma estratégia para levar o diagnóstico a espaços públicos e reduzir barreiras históricas de acesso à prevenção.

Entre no Parque Augusta…

Uma porta de entrada para o cuidado

Lançados no Dia Mundial da Aids, em 1º de dezembro do ano passado, cinco armários automáticos de entrega de autotestes de HIV passaram a funcionar em diferentes regiões da cidade. Além do Parque Augusta, os equipamentos estão instalados na Galeria Olido, no Terminal de Ônibus da Lapa, no Centro Cultural Grajaú – Palhaço Carequinha e no Centro Cultural da Juventude – Ruth Cardoso, na Brasilândia.

A proposta, segundo a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), é simples e direta: permitir que qualquer pessoa tenha acesso imediato ao teste, em locais de grande circulação e com horários ampliados, inclusive aos finais de semana.

“A ideia é que esse equipamento seja a porta de entrada para a testagem, para a pessoa estar junto com os nossos serviços de prevenção ou, talvez, para um tratamento em caso positivo”, explica Gabriel Campbell, assessor da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo.

… Siga a placa ‘Sanitários’…

Como funciona o dispenser de autoteste

O funcionamento do armário foi pensado para ser acessível e descomplicado, sem exigir deslocamento até uma unidade de saúde ou a realização de cadastros longos.

“Os armários de entrega automatizada de autotestes funcionam de uma maneira muito simples. Não precisa do usuário fazer alguma consulta anterior. Quem tiver interesse pode procurar um dos armários localizados em pontos estratégicos da cidade”, detalha Gabriel.

Ao chegar ao equipamento, a pessoa utiliza o próprio celular para escanear um QR Code disponível no armário. Esse código direciona para um site de cadastro rápido.

“É um cadastro super simples e rápido. A pessoa coloca o nome e o e-mail. Depois disso, ela recebe um QR Code, que pode ser lido na porta do armário. Assim que libera, uma das portas se abre automaticamente”, afirma.

Dentro do compartimento, o usuário encontra um kit completo de prevenção.

“A pessoa consegue retirar o kit com dois autotestes para HIV, preservativo interno, preservativo externo, gel lubrificante e um folheto informativo, com os endereços das nossas unidades e informações sobre a prevenção combinada”, explica o assessor.

… Desça as escadas…

Teste oral, gratuito e sem restrições

O autoteste disponibilizado nos armários é do tipo oral, feito por meio de swab na boca, o que facilita ainda mais o uso fora do ambiente clínico.

“O teste que está disponível é o de fluido oral”, confirma Gabriel.

Não há restrições de idade ou exigência de vínculo com o sistema de saúde para utilizar o equipamento.

“Qualquer pessoa pode vir até um desses armários e retirar o seu autoteste para o HIV. Não existe uma restrição. A partir do momento em que a pessoa inicia a sua vida sexual e quiser se testar, ela pode vir aqui e retirar”, reforça.

… Caminhe até o fim das arquibancadas…

Por que o Parque Augusta?

A escolha do Parque Augusta como um dos pontos de instalação não foi aleatória. O local reúne uma série de características consideradas estratégicas pela Secretaria Municipal da Saúde.

“O Parque Augusta está localizado em uma região central, em um espaço público com grande circulação de pessoas, incluindo populações mais vulneráveis ao HIV”, explica Gabriel.

Segundo ele, o entorno do parque concentra diferentes grupos historicamente mais expostos ao vírus.

“A gente tem aqui homens que fazem sexo com outros homens, população em situação de rua, população travesti e transexual. É um ambiente dinâmico, que engloba vários tipos de população”, afirma.

Além disso, o caráter aberto e cotidiano do espaço ajuda a enfrentar o estigma ainda associado à testagem.

“A ideia é trazer as pessoas de forma mais natural, enquanto elas fazem atividade física, passeiam ou andam pela cidade. Isso ajuda a reduzir o estigma e faz com que a pessoa se sinta mais à vontade para se testar”, pontua.

O visual do equipamento também foi pensado para esse objetivo.

“A gente escolheu uma arte mais alegre, mais colorida, para sair daquela ideia mais quadrada das unidades de saúde e trazer leveza para as pessoas iniciarem esse cuidado”, diz.

Outro diferencial é o horário de funcionamento.

“Aqui o parque funciona desde as seis horas da manhã até por volta das oito e meia, nove horas da noite, todos os dias da semana. Isso amplia muito o acesso”, completa.

… Encontre a área dos Santitários à direita…

E se surgir alguma dúvida?

Para além do material informativo que acompanha o kit, os armários também oferecem um canal direto de comunicação.

“A gente tem um QR Code com o número do nosso WhatsApp de atendimento. Se a pessoa tiver qualquer dúvida, pode entrar em contato que a gente responde e orienta”, explica Gabriel.

O canal pode ser utilizado tanto para esclarecer dúvidas sobre o uso do autoteste quanto para buscar informações sobre os serviços da rede municipal.

Aí está: O ármario do autotestes! E agora?

Resultado positivo: o que fazer

O autoteste é um primeiro passo. Em caso de resultado reagente, o encaminhamento para a rede de saúde é fundamental.

“A recomendação do Ministério da Saúde é que, se o autoteste der positivo, a pessoa procure uma unidade de saúde para fazer o teste confirmatório”, explica o assessor.

Esse protocolo vale tanto para quem se testa em casa quanto para quem realiza o exame em serviços de saúde.

“A partir do teste confirmatório, a pessoa recebe o acolhimento necessário, inicia o acompanhamento e, se for o caso, já começa o tratamento da melhor forma possível, muitas vezes no mesmo dia”, afirma.

Ao chegar, escaneie o QR Code e siga as instruções.

Prevenção combinada e queda nos casos

A iniciativa dos dispensers integra um conjunto mais amplo de estratégias de prevenção adotadas pela cidade. De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde, São Paulo acumula oito anos consecutivos de queda nas novas infecções por HIV, com redução total de 53% desde 2016. Apenas entre jovens de 15 a 24 anos, a queda registrada em 2024 foi de 59%.

A SMS reforça que a chamada Prevenção Combinada reúne diferentes métodos, como preservativos, testagens regulares, imunizações e acesso facilitado aos serviços de saúde, sendo considerada a forma mais eficaz de enfrentamento das infecções sexualmente transmissíveis.

Atualmente, a Rede Municipal Especializada em IST/Aids conta com 29 serviços distribuídos pela cidade, incluindo Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA), Serviços de Atenção Especializada (SAE), a Estação Prevenção Jorge Beloqui e o canal digital SPrEP, que oferece acesso online à PrEP e à PEP.

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Uma cidade que aposta na prevenção combinada

Em uma cidade que completa 472 anos, iniciativas como os dispensers de autoteste ajudam a contar outra história sobre saúde pública: a de um cuidado que se desloca, que sai do lugar fixo e acompanha os caminhos das pessoas.

Ao ocupar parques, terminais e centros culturais, São Paulo sinaliza que prevenção não é apenas oferta de serviço, mas também presença no território, escuta das rotinas urbanas e adaptação às formas reais de viver a cidade.

Esta reportagem integra uma série especial que percorre São Paulo a partir de suas políticas, seus espaços e, sobretudo, das pessoas que dão sentido a eles — entendendo que o direito à saúde se constrói tanto nos dados quanto nos gestos cotidianos.

Agência AIDS