Opinião

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Drag baiana tem o molho, o que falta é respeito à sua memória

Beatrice Imperial,
16/01/2026 | 19h01
(Foto: IA)

A chegada da Gongada Drag a Salvador volta a evidenciar o apagamento da história da arte travesti/transformista construída nesta cidade. Um espetáculo de humor que circula pelo país e chega a Salvador sem reconhecer nomes como Valerie, Ginna e Kaysha, artistas em plena atividade e fundamentais para a formação do humor baiano, acaba por reproduzir uma lógica desigual: usufruir de uma linguagem criada e nomear artistas deste território, que contribuíram para este formato na arte drag.

O modo de fazer show que hoje alcança projeção nacional não surgiu de forma espontânea. Ele foi evidenciado em palcos baianos, por travestis e transformistas que criaram, experimentaram e se expuseram quando não havia garantias, visibilidade ou mercado. Quando estruturas, números e ideias reaparecem descolados dessa trajetória, não se trata apenas de coincidência estética, mas de um processo de apagamento histórico.

Muito antes do êxito global de RuPaul’s Drag Race, o Brasil já possuía uma tradição robusta de transformismo e de vertente de humor, fortalecido pela presença de drags caricatas em circuitos populares, boates e teatros. Essa arte não apenas antecede o modelo norte-americano, como operava segundo outras gramáticas: menos padronizadas, mais híbridas, atravessadas por humor político e crítica social.

A posterior normalização dessas expressões a partir do formato do programa estadunidense com seus critérios estéticos, narrativos e mercadológicos é um sintoma claro do imperialismo cultural, que impõe um centro de legitimação e relega à marginalidade formas de arte trans que não se dobram a essa lógica. O resultado é o sufocamento da experimentação e o empobrecimento da memória coletiva.

Cabe um esclarecimento necessário: Becca, a única artista negra do espetáculo, é dona de um talento notável e merece reconhecimento pleno. Ainda assim, valorizá-la não pode funcionar como substituto para o reconhecimento de uma história mais longa, que antecede sua presença e que foi decisiva para a existência desse circuito artístico hoje consolidado.

Reitero, portanto, que a questão não é individual, nem diz respeito a convites ou à ocupação de um palco específico. Trata-se de respeito. Salvador não é apenas cenário, é origem. Aqui iniciamos o show com duração superior a três horas, rapidamente propagado em terras sudestinas. E toda prática artística que se sustenta no esquecimento de quem veio antes carrega um problema ético que precisa ser nomeado e debatido publicamente. Então, a drag baiana tem o molho?

*Beatrice Imperial é jornalista, artivista e drag queen.