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Quem cuida das mulheres negras? Webinário discute racismo, saúde e HIV no mês de Tereza de Benguela

Genilson Coutinho,
25/07/2025 | 12h07

Em alusão ao 25 de Julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, a Anaids – Articulação Nacional de Luta Contra a Aids, em parceria com o Coletivo Feminista de Luta Contra a Aids Gabriela Leite, promove o webinário “Quem cuida das mulheres negras? Intersecções e iniquidades em saúde”.

O evento acontece no dia 28 de julho de 2025, às 17h (horário de Brasília), e será um espaço de reflexão e articulação sobre os impactos do racismo estrutural e do sexismo na saúde das mulheres negras no Brasil, com foco especial nas desigualdades no enfrentamento da epidemia de HIV/aids.

Desigualdades que atravessam o corpo

A pergunta que dá nome ao evento — Quem cuida das mulheres negras? — é urgente diante dos números. Dados do Ministério da Saúde mostram que, entre 2010 e 2021, mulheres negras representaram 61,8% das mortes maternas no país. No mesmo período, foram 72,9% das mulheres vítimas de violência obstétrica.

Quando o recorte é HIV/aids, os dados também são alarmantes. Segundo o último Boletim Epidemiológico HIV/Aids do Ministério da Saúde, mulheres negras (pretas e pardas) representaram 62% dos casos de aids entre mulheres em 2022, apesar de serem 52,6% da população feminina. A taxa de detecção de HIV entre mulheres negras é quase o dobro da observada entre mulheres brancas.

Além disso, mulheres negras têm menor acesso à profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP), a serviços de saúde sexual e reprodutiva, e a suporte psicológico diante de situações de violência de gênero. A subnotificação, o racismo institucional e a invisibilidade nas políticas públicas aprofundam essas desigualdades.

Saúde, cuidado e resistência

O webinário propõe um olhar interseccional sobre essas violências. O objetivo é evidenciar como o racismo, o machismo e a LGBTQIAPN+fobia moldam a experiência de cuidado — ou a sua ausência — na vida das mulheres negras, especialmente aquelas em situação de maior vulnerabilidade social.

A atividade contará com a participação de representantes do Ministério das Mulheres, ativistas, profissionais de saúde e lideranças da luta contra o HIV/aids. A lista completa será divulgada nos próximos dias.

25 de Julho: memória e mobilização

O 25 de Julho foi instituído em 1992, durante o I Encontro de Mulheres Negras Latinas e Caribenhas, na República Dominicana. No Brasil, a data também celebra Tereza de Benguela, mulher negra, líder quilombola e símbolo da resistência contra a escravidão no Brasil colonial. Conhecida como “Rainha Tereza”, ela comandou, por cerca de 20 anos no século XVIII, o Quilombo do Quariterê (também chamado de Quilombo do Piolho), localizado na região onde hoje é o estado de Mato Grosso.

Após a morte de seu companheiro, José Piolho, Tereza assumiu a liderança do quilombo, organizando politicamente a comunidade, que reunia mais de 100 pessoas, entre negros e indígenas. Sob seu comando, o quilombo mantinha um sistema político próprio, com parlamento e conselhos, além de práticas econômicas como agricultura, tecelagem e comércio local. A comunidade também possuía um sistema de defesa contra ataques das forças coloniais.

O quilombo foi destruído em 1770 por forças da Coroa portuguesa. Tereza foi capturada e há registros que indicam que ela morreu na prisão, possivelmente tendo tirado a própria vida.

Em 2014, a sua trajetória passou a ser reconhecida oficialmente com a criação do Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, celebrado em 25 de julho. A data homenageia sua memória e a luta histórica das mulheres negras por liberdade, justiça e igualdade no Brasil. Tereza é lembrada como símbolo de coragem, liderança e resistência contra o racismo e a opressão.

Mais do que uma homenagem histórica, o 25 de Julho é um chamado político à mobilização, visibilizando as contribuições das mulheres negras para a construção do país e denunciando as múltiplas opressões que ainda enfrentam — especialmente no campo da saúde, onde são as mais expostas e menos ouvidas.

Serviço

🗓 Webinário “Quem cuida das mulheres negras? Intersecções e iniquidades em saúde”
📅 28 de julho de 2025
🕔 Horário: 17h (BRT)
📍 Transmissão online